vergonha na cara

 gostaria de uma análise, conselhos e exercícios sob o ponto de vista da psicanálise sobre essa dinâmica: quando eu era adolescente, a minha mãe dizia que eu não tinha vergonha na cara, que eu era galinha. dava em cima dos homens, que era oferecida. hoje tenho vergonha do meu rosto, não gosto de tirar fotografias. parece que eu criei uma gordura ao redor dele para me proteger das acusações dela ao longo de anos. como sair desta dinâmica, agora que sou adulta com 56 anos?


Castração e Desejo: As acusações de ser "galinha" ou "oferecida" eram tentativas de reprimir sua feminilidade e seu despertar sexual. Hoje, esconder o rosto é uma forma de continuar obedecendo a essa proibição, como se você ainda estivesse tentando provar para aquela mãe do passado que você é "comportada" e "protegida"

mãe, o que é ser comportada? é esconder a minha sexualidade, o meu gozo, a minha vida infantil? eu não preciso mais ser infantil ou infantilizada. essa época ficou pra trás. as pessoas sabem que eu transo e é bom que saibam. eu ficaria triste se elas achassem que eu sou uma tia velha reprimida, cheia de ódio pelos homens e pelo mundo por não sentir prazer. mãe, nós mulheres precisamos normalizar o prazer. mostrar para o mundo que é possível. e que não existe certo ou errado. ou melhor, existe sim. errado é reprimir desejo e ficar infantilizada e deprimida, com cara de bolacha, de panqueca, de menina infantilizada. 

agora eu posso perder toda essa gor-dura que eu tenho no rosto. essa COR-DURA. essa expressão defensiva, essa expressão de dureza na cara de quem foi violada por um abusador. essa tristeza nos olhos. posso conversar com a minha criança interior e dizer a ela: passou! agora somos adultas. somos pessoas crescidas que não precisam passar por abusos para crescer. já crescemos. já sofremos. era hora de colocar alegria no rosto. de vestir a fantasia do carnaval. a carne-vale. ser de carne e osso vale. ser gente, vale. eu não tenho que ter vergonha por gozar e sentir prazer. eu tenho que ter orgulho de mim.

eu não tenho que ter medo de abusadores, eu já sou adulta e sei me defender. nem por isso, preciso correr riscos desnecessários.


Identifique a Voz: Sempre que olhar no espelho e sentir rejeição, pergunte-se: "Esse julgamento é meu ou é um eco da voz dela?". Aprenda a devolver a ela o que pertence a ela. Os medos e inseguranças dela sobre a sexualidade não são seus.

A) O Exercício do Olhar (Técnica do Espelho):

Reserve 2 minutos por dia para se olhar no espelho, sem maquiagem. Em vez de focar no que você não gosta, olhe nos seus olhos. Repita para si mesma: "Este é o meu rosto. Ele é o lugar da minha verdade, não da vergonha dela". O objetivo é dessensibilizar a carga negativa da imagem

B) Carta de Devolução (Escrita Terapêutica):

Escreva uma carta para sua mãe (não precisa entregar). Escreva: "Mãe, eu devolvo para você a vergonha que você tentou colocar no meu rosto. Eu devolvo os rótulos de 'oferecida' e 'galinha'. Eles dizem mais sobre os seus medos do que sobre a minha natureza. Hoje, eu escolho habitar minha própria face". Depois, queime ou rasgue o papel.

Hoje eu escolho ter a minha própria face. eu não preciso de máscaras para esconder o meu rosto. 

desenho: uma mulher e suas várias máscaras. a máscara da bondade (mártir), a máscara do perdão (bondosa que aceita tudo), a máscara da puta (a que dá para todo mundo), a máscara da mãe (virgem maria), a máscara da dominadora (domina as feras, os instintos la ursa), a máscara da pedinte (a que recebe migalhas), a máscara da idiota (da criança que não cresceu e vive acreditando em todo mundo), a máscara da gostosa (todo mundo quer comer), a máscara da sedutora

a máscara  da mãe - a menina que se esconde atrás da mãe, ou seja, a menina que se nega a crescer e fica sendo a eterna filha, a eterna filhinha da mãe, a menininha

D) Diálogo com a "Gordura Protetora":

Em um momento de relaxamento, feche os olhos e imagine essa camada de gordura ao redor do rosto. Agradeça a ela por ter tentado te proteger das palavras cruéis da sua mãe por tantos anos. Diga a ela: "Obrigada por me esconder quando eu precisei, mas agora eu sou adulta e estou segura. Eu posso me defender com palavras, não preciso mais desse escudo".

eu não preciso mais ter máscaras de defesa. obrigada, gordura, por ter me escondido por tanto tempo da vergonha de ser mulher, mas eu não preciso mais deste subterfúgio. não preciso ficar presa na meninha carente da mamãe narcisista. as palavras da minha mãe narcisista não me afetam mais. ela está jogando o lixo dela no meu rosto, mas eu sei que palavras feias podem se dissolver no ar. palavras não são flechas para me atingir, palavras são metáforas que jamais irão superar a realidade. a realidade é que a minha mãe não pode impedir a filha dela de virar uma mulher. 

Gordura, você me ajudou tanto a me defender das palavras cruéis da minha mãe, do patriarcado, da sociedade, mas acho que agora eu posso mostrar a minha verdadeira face de mulher. não preciso acumular gordura no rosto para me esconder e nem acumular gordura na barriga para as pessoas pensarem que estou grávida e que por isso sou mulher. esses subterfúgios são bobagem. eu conheço a minha verdade e essa verdade não importa aos outros. importa a mim

Muito obrigada, gordura. agora eu posso me despedir de você. valeu mesmo, mas chegou a hora de mostrar quem eu sou. eu não preciso mais me esconder. esconder. eu tenho a conha (vagina) na cara com muito orgulho.

o meu rosto é uma prova da minha existência sofrida. agora eu quero que ele seja a prova da minha liberdade, do meu prazer, do meu feminino que goza. quero que o meu rosto seja livre para ser quem ele quiser.



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