a minha mãe me criou para eu ser arrimo de família e a garantia de vida dela. a pessoa que iria preencher todos os seus desejos e iria tirá-la da solidão. foi uma missão implícita que só decobri agora aos 56 anos. o meu namorado, de 60 anos, me tem como a garota de programa dele, como quem ele se diverte, às vezes passa a noite aqui, saimos para jantar, programas, mas quando ele acorda, vai para o ap dele onde mora com a filha de 25 anos, com quem ele divide uma cama de casal. tenho essa sensação de que, por ser primogenita, a minha mãe casou comigo, como se meu pai fosse apenas um doador de esperma. agora que ele morreu, quando vou a salvador (eu moro em SP), durmo na cama que foi dele (parece que numa missão de pegar o seu lugar) e ficar casada com a minha mãe. enquanto escrevo isso, sinto que também era a garota de programa do papai. como sair desta situação? qual a análise do ponto de vista psicanálitico e e quais recomendações e exercícios práticos para sair desta situação/ repetição disfuncional?
O Lugar do Objeto: Tanto para sua mãe quanto para seu namorado, você parece ocupar o lugar de objeto de satisfação, e não de sujeito com desejos próprios. Sua mãe te usa para aplacar a solidão; seu namorado te usa para o prazer pontual.
Você está repetindo com o namorado o padrão que aprendeu em casa: ser aquela que serve, que está disponível para o desejo do outro.
Você sente que precisa "performar" ou "servir" para ser amada, como se não tivesse o direito de ser cuidada sem dar algo em troca.
Escreva uma carta para sua mãe (que você não vai enviar). Diga explicitamente: "Mãe, eu não sou seu marido. Eu não sou sua garantia de vida. Eu sou sua filha e cheguei tarde para a minha própria vida por tentar salvar a sua." Queime a carta depois. Isso ajuda o cérebro a processar a separação simbólica.
Mãe, ser filha não é uma função vitalícia. eu já sacrifiquei demais a a minha vida e lamento que você tenha sacrificado a sua. na verdade, precisamos quebrar este ciclo de auto-sacrifício. esse lugar de filha mimada da mamãe é confortável porque eu tenho muitos benefícios de ser cuidada, mas também um peso gigante de ter que estar sempre disponível para o outro. parece um emprego opressor onde eu faço tudo que o chefe quer e, no final, recebo um bom salário. é prático. qual é o problema? é que repito a dinâmica oprimido e opressor. como estou sempre no desejo do outro, nunca acesso o meu desejo. o problema é que eu quero acessar o meu desejo no esquema antigo, o que não é conciliável. mãe, sei que você só quer me proteger, mas eu agora preciso sair de casa e ter uma vida própria e um desejo próprio. ah, mas o mundo é violento, sujo, perigoso, arriscado... em casa você está protegido.
eu tô muito cansada da violência no mundo. eu prefiro ficar em casa, ficar protegida. tô cansada de lutar. dilema: dentro x fora. eu quero um lugar seguro para viver. sentindo que quero voltar para o passado e ficar lá quietinha. quero voltar para o útero, para o paraíso.
Pat, o que tá pegando são as demandas do mundo. Quais são as demandas do mundo? o desejo do outro. é isso que tá me cansando. quais são os meus desejos? quais são os nossos desejos enquanto adultos? o que cansa é ser criança e atender aos desejos dos pais. tenho que me libertar. o meu receio é que saindo da casa dos meus pais eu não terei amigos ou companhia. eu ficarei sozinha. medo da solidão. Sabe qual é a boa nova? Vários filhos estão saindo de casa também. você não estará sozinha.
o medo do novo e achar que quando era criança, era melhor. ser adulto é muito pesado. procurar um lugar de conforto fora, sendo que este lugar de conforto pode ser dentro de mim.
Comments
Post a Comment