abandono

a minha mãe me criou dizendo que sem ela eu ficaria sozinha e não teria ninguém. hoje, com 56 anos, percebo que as minhas amizades femininas são tábuas de salvação para não ficar só. faço tudo por elas, como fazia para a minha mãe. o mesmo faço com o meu namorado que me usa como garota de programa, mas não quer nada sério comigo. gostaria de uma análise do ponto de vista psicanalítico e exercícios práticos para sair deste limbo, desta situação emocional de dependência do outro.

ela criou um vínculo de dependência através do medo, não do amor. Você cresceu acreditando que o "outro" é o único oxigênio disponível.

Ao fazer "tudo por elas" (amigas) e aceitar migalhas do namorado, você está tentando convencer sua mãe (através dessas pessoas) de que você é digna de amor e que não será abandonada.

sente que se não servir para o prazer ou utilidade do outro, você perde sua função de existir. É o preço que você paga para não enfrentar o silêncio da "solidão" que sua mãe tanto lhe ameaçou.

O objetivo aqui é a individuação: deixar de ser o "puxadinho" de alguém para ser uma pessoa inteira

O exercício: Observe a sua ansiedade física (palpitação, suor). Sinta o medo de ser abandonada e não fuja dele. Perceba que, mesmo dizendo não, o mundo não acabou e você continua viva.

Toda vez que você fizer um favor ou aceitar um encontro degradante, escreva: "Eu fiz isso por [Nome] porque quero que ele(a) me dê [Atenção/Segurança/Amor]".

A tarefa: Depois de escrever, risque o nome da pessoa e escreva o seu. "Eu vou dar [Atenção/Segurança/Amor] para mim mesma hoje, fazendo [Ação de autocuidado]".

Escreva uma carta para sua mãe (não precisa entregar). Diga a ela: "Eu aceito que você teve medo de me perder, mas a sua profecia de que eu ficaria sozinha é mentira. Eu tenho a mim mesma". Queime ou rasgue essa carta. Isso simboliza o corte do cordão umbilical emocional que ainda te prende aos 56 anos.

mãe, quando eu dizia não para você, você me abandonava. eu não preciso mais passar por isso. caso eu diga não a alguém e essa pessoa me abandonar porque quer me manipular e não me abandonar de verdade, eu vou agradecer que essa pessoa infantilizada esteja saindo da minha vida. eu estou a serviço do meu bem-estar e não do bem-estar do outro. não estou aqui para satisfazer ao outro e me sacrificar por outras pessoas. se a pessoa quiser me abandonar, ela pode me abandonar. é uma escolha dela. eu não vou me reduzir e me tornar criança de novo para caber na manipulacão do outro. pessoas adultas expressam claramente os seus desejos e entendem que são auto-responsáveis pela própria felicidade.

às vezes, as pessoas manipulam as outras para medir o afeto. isso é tão infantil, mãe. lamento que você não tenha tido a possibilidade de crescer para entender isso. pessoas adultas possuem uma comunicação clara, direta. assumem suas questões de forma aberta.

carlos, lamento que você use de tantos subterfúgios para me manter perto de você inclusive fique testando a falta que você me faz. esse era o artifício da minha mãe, uma pessoa super insegura que me manipulou e me fez sofrer muito. carlos, eu não quero mais sofrer por pessoas infantis e inseguras. é um buraco sem fundo. elas nunca estão satisfeitas. eu preciso seguir a minha vida para um lugar seguro, onde as pessoas não fiquem me testando o tempo todo. isso me deixa confusa, insegura, sem chão, sem oxigênio. mas sabe qual é a novidade? cada vez mais tenho clareza destes sistemas de manipulação. muito cansaço disto. o chão está embaixo dos meus pés. não é você que me dá chão. o oxigênio está aí para todo mundo. eu posso respirar sem você. é um alívio. eu não preciso de você para viver, como eu precisava. não sou mais criança. eu sei como o mundo funciona. 

Eu aceito que você teve medo de me perder, mas me manipular não foi uma boa estratégia. eu fiquei com muita raiva de você e queria te abandonar logo que eu pude. foi uma vingança doce sair de suas presas de leoa faminta que sempre queria mais. não estou aqui para viver de forma infantilizada e servil. o universo ou eu mesma quero crescer, ser adulta, para de ter medo da vida - o medo que você colocou em mim. o mundo é grande, existem muitas pessoas. eu não vou ficar só enquanto eu tiver a melhor companhia que é a minha. neste momento eu não quero ficar com ninguém. eu quero ficar comigo. eu mereço sentir que estou bem acompanhada comigo mesma. essa escrita terapêutica está sendo maravilhosa. estou colocando pra fora muita coisa que eu sentia e não conseguia discernir ou falar. meu pai tinha razão: escrever é uma companhia maravilhosa. estar comigo mesma é estar com uma companhia incrível! eu não preciso que você me alimente através do cordão umbilical. ele já foi cortado. nem cortar precisamos mais. eu sou adulta e sei me alimentar.

MANTRA:
a sua profecia de que eu ficaria sozinha é mentira. Eu tenho a mim mesma

Defina três coisas que você não aceita mais na relação com o seu namorado. 

quando escrevo, percebo que estou dizendo pra minha mãe, para o meu pai.

Eu não aceito que você me use para curar a o seu vazio e a sua solidão sem estabelecer uma conexão emocional comigo.

Eu não aceito que você me abandone depois de se divertir comigo. somos pessoas adultas, numa relacão adulta e não numa relacão pai/mãe/filha.

Eu aceito encontros apenas para sexo e para nos divertimos. o que eu não aceito é que a nossa relacão seja reduzida a isso.

Eu não aceito mais viver num mundo de fantasias e mentiras. eu quero viver na realidade

mãe, pai, o vácuo de solidão que vocês me deixaram é espaço livre para conhecer novas pessoas. quando eu era pequena, não tinha pernas para sair de casa. agora eu tenho. patriarcado, acabou essa lei de que mulher não pode sair de casa sozinha. eu posso sair de casa sozinha e encontrar homens em qualquer lugar, inclusive na rua.

Mãe, pai, esse medo que vocês me colocaram de que a rua é perigosa eu entendo. ela é, às vezes. existem coisas boas na rua. eu não preciso ficar presa no clã familiar com receio que as pessoas da rua me abandonem. elas também querem interagir. a familia não é o unico lugar seguro do planeta e existem homens que sentem o mesmo que eu: vontade de interagir, respeitar o ser humano, que sonham com um mundo mais justo e honesto. mesmo que o patriarcado tenha nos esmagado, existem brechas. e essas brechas são sempre encontros com homens e mulheres que vibram na mesma frequencia que a gente. 

Não cabe ao outro me dizer quem eu sou. Eu sou sujeito de mim.




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