Patinha, eu, a boneca argentina e o cachorro de plastico rigido Xereta

 Imagem: patinha sentada olhando para Jesus crucificado. Eu chego perto e abraço ela. Ela diz: me enganaram. Eu aceno com a cabeça. Esse Jesus na cruz é só uma imagem. Ele não existe de verdade. Ela: eu acreditei. Eu: acreditamos. Mas Agora nós temos uma a outra. Nós nos amamos. E somos uma só. Ela: é difícil abandonar essa imagem. Eu: eu sei. Ela: como sair daqui? Eu: não sei. Talvez entrando na vida real, amando a carne (a minha mente pensando: Lacan, a entrada no real). Parando de projetar imagens. Vivendo a vida real. A carne. O sabor da carne. Eu;”: eu quero a carne que pulsa. Essa imagem é de madeira, não pulsa, não cria, não me aquece. Ela é uma promessa gelada. Eu nunca serei amada por Deus ou Jesus. É meu amor por eles é totalmente platônico. Jogado fora. Em vão. Sem correspondência. O que ainda estamos fazendo aqui? 


Patinha: não sei. Pegam a boneca de pano (uma que meus pais trouxeram da Argentina). As duas: essa boneca de pano é mais quente do que aquela escultura na parede. [objeto transicional Winnicot] elas se abraçam com a boneca de pano no meio. 


Penso que podem roubar o que estou escrevendo e fico tranquila: de onde vem este texto, pode vir mais. Não é único. Não é especial. É fluxo de pensamento. De criação - talvez. Não é uma cruz fixa com um boneco de madeira colada no meio. Não tenho que carregar um crucifixo. Um filho único e especial. Isso não existe. São tantos os filhos. Crie, crie, crie. E quem vai me amar por isso? Ninguém. Percebo que tem outras pessoas ao meu lado. Todas olhando fixamente no crucifixo. No sacrifício. Todos com um óculos 3D. Eu estou de costas. Pra onde ir? A cortina está cortada no meio. Saio do teatro escuro. Vejo o dia, a rua, a vida. Não reconheço ninguém - ainda. Não conheço ninguém - ainda. Mas sei que o meu lugar é este. Eu seguro a mão de Patinha e com o outro braço carrego a boneca Argentina. Estamos desamparadas. Argentum - dinheiro. Não sabemos pra onde ir. Para além da igreja, do útero, não sei como sobreviver. Mas acredito na vida. Não voltarei mais para aquele buraco escuro. Não voltaremos para o que me restringe, para a gaiola. A luz do dia me ofusca. Vou ter que me acostumar. Abraço Patinha, a boneca e eu. Estamos juntas. [por que a boneca Argentina continua na cena? Não sei]. Eu não preciso mais do meu pai e nem da minha mãe. Eu preciso seguir em frente, mas onde é em frente? Crescer, multiplicar, estudar, criar é em frente. Como? Como se faz tudo isso sozinha? Estamos sozinhas, Patinha e eu. Como posso seguir em frente sem mãe, sem pai se todos estão lá no templo adorando imagens? Na caverna, vendo imagens? Num útero fictício se ajoelhando para imagens? A vida ê aqui fora, gente! Ninguém me escuta. Eu não volto pra lá. Pra lá não volto. Foram 56 anos num cinema imaginário. Eu quero tocar na vida. Quero ser tocada pela vida. Não há perigo, há avanço. No corpo, na realidade, há avanço. Tchau, Carlos, sei que você quer continuar vendo imagens. Filmes ponôs onde o único sentido usado são os olhos. O que foi permitido pela igreja: olhar. Nada de toque. Não toque os Santos. Tchau, ortodoxos! Tchau dogmas! Tchau gaiola! Mas aqui fora, continuo sozinha, sem ninguém. Só eu, Patinha, a boneca e uma mala pequena, que a minha avó me deu com roupinhas de bonecas. Ainda operando nas imagens. Resgatando imagens. Essa mala minúscula de couro pesa uma tonelada. Não sei onde foi parar. E percebo que essa mala sou eu. É o sofrimento feminino passado de mão em mão. Gostaria de ter essa malinha pesada de volta. Pra quê? Para continuar conectada à minha avó materna. Pra que? Não sei. Conectada ao sofrimento dela. A mala sumiu. Percebo que quero a mala para tirar o sofrimento de mim. Recupero a mala e coloco o meu sofrimento dentro dela. Fecho e jogo no lixo. Algumas brinquedos pesados precisam ser descartados. O sofrimento de gerações precisa ser descartado. Essa mala fica pra trás. Continuo na rua, no meio fio. Agora sentada, esperando. Como uma mendiga que espera. Mas eu não sou mendiga. Eu tenho dinheiro. Tenho meu corpo. O meu corpo tem valor. Será que eu deveria me prostituir (lembro de pobres criaturas). Fico parada refletindo sobre o que significa vender o meu corpo para ganhar dinheiro. Será que foi isso que eu fiz quando trabalhava no mundo corporativo? Eu vendia meu corpo para ganhar dinheiro. Não falo de sexo. Falo de um corpo usado para gerar dinheiro para outras pessoas, na maioria, homens. Eu subordinada a imagens - de poder. Eles podem. Continuo no meio-fio refletindo. A boneca de pano à esquerda. Patinha â direita. Quem é essa boneca? Quem é Patinha? Minha fonte de segurança. Com elas, não me sinto só. Preciso crescer. Sair deste lugar onde continuo carregando uma criança e uma boneca comigo e os meus braços estão presos. A gaiola ficou pra trás. Meu coração está dentro de mim. Será que eu deveria colocar tudo isso dentro de mim para deixar os meus braços livres? Existe uma forma de liberar os braços para criar? Colocar Patinha e a boneca Argentina sem nome no meu coração. E todos os brinquedos que foram meu e que me tiraram da solidão. O que carregar? O que descartar? Descartar a gatinha branca comprada em Miami? Substituir. Substituída pela minha gatinha Mel de olhos azuis e cor de paçoca. Ela é real. Winnicot de novo. Objetos transacionais? Imagens, brinquedos inanimados, bichos. Co-existir? Acreditar que pessoas de verdade podem ser meus amigos e minhas companhias. Tocar e ser tocada. Transicionar. O Claus não. Ele tá longe. O Carlos? Ele tá na Vila Mariana. Optou pela Igreja. Por ser um bom menino. Carlos, meu namorado pode ser descartado? Substituído? Eu queria me masturbar. Disseram que era pecado. O pecado ficou pra trás. A masturbacao também ficou pra trás porque posso ter prazer com pessoas de verdade. Com o Carlos. Gosto de transar com ele. Essa é a dificuldade de substituir o Carlos. O corpo dele. Existem outros corpos. Continuo no meio fio agarrada à boneca e à Patinha. Não quero sair daí.  É uma solidão boa. Melhor do que ficar olhando Jesus Crucificado sem entender o que aquilo significa. Significa loucura, subserviência. Com a criança e o brinquedo, pelo menos, existe sanidade. Penso que me prostitui sim nas empresas que trabalhei. Não foi sexo. Dei meu corpo e eles usaram para os fins deles. Não eram os meus. Um corpo que virou máquina. Que foi humilhado. Melhor ficar com a boneca e a Patinha. No meio-fio com elas é uma solidão boa. Minhas amiguinhas imaginárias. Agora tem um fogão de brinquedo, panelinhas, um salão - tudo de brinquedo. É um mundo bom. Ali no meio-fio, criei o meu mundo imaginário. Pelo menos, é meu, é seguro. Mas a minha bunda dói. Agora dói na cadeira da escola, da faculdade, da empresa. Dói ficar cansada e não usar as minhas pernas. Saio pelo mundo, tenho pernas. Tenho liberdade nas minhas pernas e não quero parar. Agora a minha grande companheira é a liberdade. Mas como posso comer, pagar um teto. Não quero mais me masturbar. Não quero mais me prostituir nas empresas. Como me sustentar não só pelas pernas, mas sustentar a minha boca, a minha barriga. Inventaram o dinheiro. Não fui eu. Mas quando não havia dinheiro a prostituicao era mesma. A gente tinha que trocar coisas. Tinha que vender q minha boneca Argentina, minha criança, meus sonhos. Eu vendi. Vendi para para os meus pais para poder garantir casa e comida. E agora? Eu tô me vendendo pra quem? Eu tô me vendendo pra que? Como sair do mundo capitalista? Como sobreviver neste mundo de trocas? Recupero a minha boneca, a Patinha e volto para o meio-fio. Não sei como sair daí. Me vender para um homem? Pra que? Não vejo saída por aí. Não vejo mais a venda como uma saída. Tirar a venda dos olhos, essa é uma saída. Imaginar outras relações possíveis que não a troca, a venda, o capitalismo. Estou parada no meio-fio com a boneca, Patinha, confiante de que acharemos uma solução sem venda. Transformando o olhar - talvez. Tirando a venda escura e vendo a vida solar com clareza. Por que a estátua da justiça está vendada? A estátua da liberdade vê - prefiro. As duas possuem as mãos ocupadas. Patinha e a boneca Argentina sem nome estão sentadas no meio-fio comigo. Estamos independentes umas das outras. Não preciso mais carregá-las. Possuem pernas como eu. Ter pernas é ter independência. Amo ter pernas. Amo ter braços e mãos livres que não Precisam carregar mais nada. Estou só, mas é bom. Melhor do que o escuro da igreja, da caverna, do útero, da empresa, do teatro. Nenhum desses lugares foi seguro pra mim. Foram lugares de esfaqueamento, de luta, de sobrevivência. Continuamos no meio-fio, como Carlitos e seu cachorro em Vida de Cachorro. Eu deito porque é preciso dormir e me enrolo num cobertor. Do meu lado aparece o Carlos. Ele também é um vagabundo. Ele também está na rua mendigando. Ele também não sabe o que fazer. Ele grita comigo e diz que eu preciso achar uma solução. Eu???? Por que eu? Por que não você? Ele espera de mim que eu resolva essa situação. Ele continua gritando. Exigindo de mim. Peço para ele ir embora. Colocar a culpa em mim não resolve nada. Deste jeito, prefiro continuar só. Continuo só. E durmo sem medo. Vai dar tudo certo, agora que enrolada numa manta no meio-fio. Na maternidade é frio. Tudo é de metal gelado. Não existe aconchego. Na maternidade, não o prédio, tudo é gelado. Abaixo de zero. No útero é frio. E nas igrejas de pedra. Porque não existe toque. Tocar é pecado. É sujo. Pra quem? Na idade média, talvez. Hoje usam luvas pra tudo. Micróbios, dizem. Lenços úmidos de papel. Tocar é sujo. Proíbem as crianças de tocar. Eu continuo enrolada no meio-fio, que talvez seja a maternidade. Que lugar horrível é a maternidade de um hospital. Me tirem daqui. Essa sou eu gritando. Gritando como o Carlos que queria que eu tirasse ele do meio-fio. Do meio frio da maternidade. Carlos sou eu. Um eu que me culpa, que exige solução, que me odeia, mas não ajuda em nada. Tento um diálogo com o Carlos. O que vc tá fazendo aqui? Ele não responde. É rabugento. É como se o cachorro do Carlitos fosse aquele desenho animado de Hanna Barbera. Por que eu tenho um companheiro assim, tão mal-humorado? Que não quero um companheiro assim. Eu quero um companheiro afetuoso, que me ajude a farejar uma saída. Um cachorro ativo que me guie na escuridão. Será que o cachorro é o meu nariz? Coloco uma coleira no Carlos, que virou cachorro, e ele sai farejando. Pra que colocar uma coleira no cachorro Carlos? Xereta era o meu cachorro de brinquedo  farejador. Eu saía com ele pela casa. Ele me fazia companhia. Eu fingia que ele era de verdade. Dormia com aquele brinquedo duro e frio. Quero substituir o brinquedo duro e frio por um cachorro de verdade, mas a minha mãe não deixa. Agora não preciso mais de minha mãe, nem do cachorro xereta. Posso sunbstitui-lo por um companheiro bom, de carne e osso. Não um rabugento e chato. Eu posso ter companhias de verdade, de carne e osso que são quentes. O Carlos na cama é quente. Mas quando saímos na rua ele é gelado e joga a culpa de estarmos no meio-fio em mim. Me vejo no meio-fio com um companheiro que me abraça, que gosta de mim, que não tem vergonha de se tocar em público, de se beijar e se abraçar em público.  O meio-fio é a divisão entre o público e o privado, me pergunto. Essa distinção não deveria existir. Ou deveria? As proibições públicas, as permissões privadas. Carlos está ao meu lado no meio-fio. Ele é carinhoso e depois vira um monstro. Ele é confuso. Ele não sabe o que fazer com os sentimentos dele de raiva. Carlos, jogue fora a sua raiva. Jogue no lixo. Eu não sou lixo e nem lixeira. Eu sou gente. Não se joga raiva em outras pessoas. Carlos é um menino birrento. É um saco tanta birra. Fica provocando o outro, fazendo bullying. Eu não gosto deste menino birrento, não tenho paciência, mas vou tentar falar com ele. Do lado direito estão Patinha e a boneca de pano Argentina. Carlos, por que você é rabugento? É difícil conviver com gente como você. Ele fica dócil, passa a cabeça na minha perna. Ah, entendi, você quer atenção. O meu cão farejador, o meu nariz quer atenção. A minha respiração pede atenção. Carlos, você tá sempre emburrado. Vive dando chilique, gritando. Eu canso só de pensar. O médico e o monstro. Minha mãe era assim. Mas era fiel, estava sempre ali. Como o cachorro Carlos. Você é minha visão de instinto. O cachorro. Leal e fiel, mas rabugento, estourado, confuso. Pego o cachorro, que não é mais Carlos, e abraço. Você faz parte. Sempre falo isso para a minha gatinha quando ela quer dormir comigo e com o Carlos na cama: venha, você faz parte, minha Mel. Agora eu falo para. Meu instinto: venha, você pode dormir aqui. Você faz parte. Vocês todos fazem parte. Vocês não estão só. Você não está só. Eu aceito o meu instinto. Eu aceito a minha mãe. Eu aceito que nunca olharam pra ela. Nunca olharam para a vagina. Vagina, você faz parte. A pobreza faz parte. A riqueza faz parte. Carlos, por que você fica assim? Insubordinado? Porque você acha que eu sou a sua chefe? Eu não sou a sua chefe. A rainha da razão não é a sua chefe. Você é passivo e fica esperando por mim, pelas minhas ordens e depois se chateia porque recebeu ordens. A rainha da razão é a cabeça. Carlos é o instinto, meu corpo. Não, eu não sou a rainha da razão. Eu faço parte. Assim como você faz parte. Somos ativos. Ninguém manda em ninguém. Eu amo o meu corpo. Eu escuto o meu corpo. Eu escuto o Carlos. Eu quero continuar escutando o Carlos, mas ele não fala. Ele grita, se revolta, se contorce. Eu te escuto, Carlos. Eu escuto o meu instinto. O meu instinto está aprendendo a falar. O meu corpo está aprendendo a falar e eu escuto. O meu instinto não sabe falar. É como se fosse uma criança birrenta. Ele foi oprimido, reprimido. Agora ele quer falar, mas não sabe. Eu te escuto. É bom te escutar. Você não é o bom menino. Ok! você é a menina má. Ok. E Carlos já sou eu. E eu não sou a mãe do Carlos. Eu não sou mãe de ninguém. Não tenho que educar ou domesticar ninguém. Foi esse papel que me deram. Mas eu não quero mais esse papel de mestre educadora. Eu posso me libertar deste papel. Posso escutar o meu corpo e seguir um caminho diferente. Não preciso seguir o caminho da igreja católica, da Madre Suoeriora, da mãe santa e rígida. Que modelo péssimo este da Igreja Católica. Posso seguir o Carlos. Posso seguir o meu instinto. Posso seguir o meu corpo. Cabeça cortada (igreja católica cortada) e eu recebo uma nova cabeça que é minha. Não é a do Carlos. Não é a do patriarcado - porque eles também querem mandar em mim. É a minha cabeça - finalmente. Os meus olhos, boca, nariz,pescoço, todo o meu corpo. Eu me sinto segura aqui. O meu corpo é bom, ele gosta de mim, ele nunca foi contra mim. Vejo o Carlos, como eu, buscando a segurança da mãe, buscando a gaiola, mas se revoltando contra ela, porque essa segurança materna, da Igreja, da organização, do dinheiro é falaciosa. A primeira segurança e a segurança do corpo e ao eu posso acolher o meu corpo e dizer que ele faz parte. Que nós nos pertencemos. Que somos potente e criadores. Que a segurança dada pelo pai e pela mãe é ilusória, é limitante, é uma gaiola. Que o corpo e o pássaro e ele sabe voar. que a língua, a palavra, os gesto, a vida, o fluxo é o pássaro que sabe voar. Eu sei voar. Meu corpo sabe voar. E aí penso que a boneca, a Patinha, o Carlos, o cachorro xereta são amuletos nos quais eu me apoio, quando o meu corpo não precisa destes artifícios e o que me prende a este meio-fio são exatamente esses amuletos-muletas aos quais estou agarrada e que eu preciso deixar pra trás para poder levantar e caminhar. Não num pensamento mágico infantil de que galinha voa, mas na tranquilidade de que o meu corpo está inteiro e completo e que eu tenho tudo que preciso para poder existir e criar. Minhas mãos estão livres, meu corpo está livre. Sou uma pessoa adulta e este estado me conforta. 

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