O marista
O Marista
Larguei o mundo corporativo, a universidade e passei a ser estudante. Vivo estudando.
Encontro o Carlos e umas das afinidades que temos é o fato de que os dois estudaram no Marista. Isto se tornou mais importante pra ele do que pra mim. Ele me conta que tem fetiche (não usou essa palavra) com uniformes colegiais. Assiste a filmes pornõs com essa temática.
Reflito sobre como este tema nos conecta. Eu a eterna estudante. Ele o que tem fetiche com uniformes escolares, estudantis. Há um encaixe.
Meu aniversário deste ano aconteceu com pessoas que foram do Marista. Passaremos o reveillon com outras pessoas que foram do Marista.
Penso que voltei a ser estudante porque era um mundo seguro pra mim. Eu achava seguro. Seguia as regras, fazia o que os outros queriam e tirava notas boas. Se eu quebrasse as regras, seria punida. Não via motivos para quebrar as regras e ser punida. Não queria. Eu era obediente. Me vejo engolindo o falo (associação com regras). Masturbando o falo, dando prazer ao falo. Não é desprazeroso pra mim, mas é uma excitação reduzida. Não gozo. Tampouco crio. Não me vejo recebendo o penis na minha vagina, não me vejo sendo penetrada. Não me vejo tendo prazer ou gozando recebendo o penis na minha vagina. Eu prefiro chupar o penis - é mais seguro. Aí eu não engravido.
Por que eu não quero engravidar? Por que eu não quero criar? Por que eu não quero gozar? Não sei. Nunca pensei nestes termos.
O Carlos não foi um aluno exemplar. Vejo nele uma vontade de quebrar regras de uma forma infantilizada. Por exemplo: sendo advogado, ao invés de usar uma gravata, usar uma gravata borboleta. Ele quer que eu ache isso o máximo. Não acho. Penso ser infantil. Uma forma infantilizada de chamar atenção.
Eu não quero quebrar as regras. Eu gosto de regras como uma forma civilizada de convivência. A questão é: como separar a imagem de engolir o penis (o que eu não preciso engolir, o que penetra a minha vagina, o que me ajuda a gerar, criar) do falo (regra, patriarcado, poder - que eu também não preciso engolir.
Acho que, antes de mais nada, o penis não é perigoso é engravidar não é ruim. Talvez fosse naquela época em que eu era adolescente, colegial. Mas continuo vendo a imagem do falo (penis) na boca. Confesso que estou cansada de ter que engolir o falo. Ter o falo na boca me silencia. Lacan: o falo não é o penis. Como diferenciar. Acho que continuo sendo uma adolescente estudante que tá procurando estudar e entender. Fecho os olhos e sinto uma confusão. Como uma matéria que não consigo entender. Lembro que na minha adolescência, li vários livros sobre sexo antes de transar. Livros religiosos sobre sexo. Nem quero imaginar o que aqueles livros continham. Livros religiosos da década de 80. Que sexo não era seguro? Que sexo era perigoso? Que sexo era mecânico? Que sexo era reprodução? Que sexo era religioso? Que sexo era sujo e feio? Todas frases que devo ter escutado da minha avó e minha mãe. Mãe, avó, vocês estão desatualizadas (depois volto a isso). Eu sentia medo de sexo, eu sentia medo dos homens (meninos), eu sentia medo de ser castrada. Eu fiquei paralisada sexualmente aí. Percebo. No medo de me relacionar sexualmente. Escutava tantas coisas ruins sobre isso. De como era perigoso engravidar (morria de medo), de como eu iria acabar com a minha vida. Parece que q única coisa certa da minha vida era estudar. Os homens eram maus. Nada nos homens parecia bom. Eles só querem usar as mulheres e depois jogar fora. Só querem trair. Estou paralisada nestes estereótipos. E se os homens não forem maus? Se eles não forem todos cafajestes? A quem interessa esse discurso? De que sexualmente os homens são um lixo? São maus caráters? A quem interessa que o sexo seja visto como maldade? Como coisa feia? Como sujeira? E se os homens não forem maus? E se eles quiserem o que nós queremos? União, prazer, multiplicar, compor? E se eu puder deixar de ser estudante (teorias) e começar a conhecer o mundo a partir de uma prática? Não o sexo, apenas, por que isso eu já conheço bastante, mas o sexo como forma de união, criação, multiplicação? Não como reprodução (alô, Igreja, quanto desserviço).
O sexo como castração: você vai me machucar. Você vai arrancar o penis dos homens (mulheres más). Você vai meter uma faca (outro símbolo fálico) no meu clítoris, na minha vagina.
Acho que é isso que o Carlos tem medo: que eu arranque o penis dele. Por isso ele me fere para mostrar que o penis dele pode me machucar. Mas quem me fere não é o penis dele, quem me fere é ele. Do penis dele eu gosto. E acho que ele gosta da minha vagina.
Bem, acho que posso sair deste lugar de estudante, no qual eu achava que casar é ter filhos seria ruim para a minha vida. Que eu teria que me submeter aos homens, às regras dos homens. Isso que o Carlos quer, que eu me submeta às regras dele. Ele como o criador das regras porque ele tem o falo. Mas quem cria as regras não são os homens. É a justiça. É uma mulher cega que quer o bem da humanidade. É um colegiado de pessoas. Não é Deus que cria as regras. Acho que Carlos acha que o penis dele é Deus. Percebo essa confusão entre falo, fala, penis, Deus. Tá tudo amalgamado. Preciso separar. Deus é Deus. Penis é penis. Carlos é um homem falocentrico. Falo é falo. Fala é fala. E o que é o falo? Não sei.
Eu não tenho que engolir o penis. A relação boca x penis não é igualitária. Cadê a minha vagina. A minha vagina não pode existir. Por que? Porque se ela existir, eu posso engravidar e q minha mãe não quer que eu engravide. A minha mãe quer que eu me forme e sustente ela. Quer que eu fique no lugar do meu pai chupando a vagina dela - tentando satisfazê-la. Mãe, não tenho penis, chame um penis para te satisfazer. Mas ela não pode chamar porque ela não pode gozar e nem engravidar. Por que? Porque ela tem que satisfazer a mãe dela. Quem é q mãe dela? A igreja. Insaciável. Igreja, chega! Basta! A minha relação com você termina aqui. A minha realidade é o corpo. Não é uma instituição que se autopromove e enfia o falo/fala (Deus) goela abaixo das pessoas. Eu não preciso engolir o falo. Não preciso engolir Deus. Não preciso engolir a fala. Me vejo vomitando. Sinto náuseas. Eu posso aceitar as necessidades do meu corpo e da minha vagina. Sim, eu tenho vagina. Maria não tinha vagina, não é mesmo? Ela gerou um filho de forma mágica.
O que é o falo? Não sei. Uma invenção do Freud e do Lacan. Sei lá. Uma teoria.
Tenho medo do Carlos. Sei que o Carlos tem medo de mim - pressinto. É conveniente para a Igreja que as pessoas tenham medo umas das outras. Assim elas não se unem. É conveniente para a Igreja que homens e mulheres sejam inimigos. Assim eles não se unem. Mas a gente vai se unir. Porque quem precisa sair desta triangulação é a igreja. É o pecado. É o medo. E quem precisa entrar nesta equação é o prazer, q criatividade, a vida. A união. Eu não quero afastar o Carlos. Eu quero que ele fique perto de mim. Eu quero paz.
Como sair da adolescência? Como sair do Marista? Da universidade católica? Entendo que essas instituições estão nos enganando. Que elas não servem mais. Que elas estão nos impedindo de crescer. Elas colocaram muito medo nas nossas mentes. Talvez tenha sido um lugar seguro. Hoje é um ambiente limitador.
Como confiar nos homens? Eles também querem crescer. Eles também estão cansados. Eles também querem a paz. Será? Alguns. Eu quero. Por que não confio? Porque eu tenho medo, medo de ser castrada pelos homens, de ser ferida, machucada. Mas a castração quem faz não são os homens. São as escolas. São os pais. É a igreja quando diz que sexo é pecado. Castrados nós já estamos. A nossa potência já foi castrada. O que a gente precisa dizer é: teoria, não preciso mais de você. Você está me atrapalhando. Ser estudante está me atrapalhando. A escola, a faculdade, a empresa, meus pais estão atrapalhando. Essas muletas estão me atrapalhando.
O que resta: me unir a um homem. Aceitar que essa união vai ser benéfica pra mim. Dar esse passo. Ir além do que me foi ensinado. Não preciso quebrar regras. Eu posso me unir a um homem em qualquer lugar. Sexo não é vergonhoso. Sexo e limpo, é saudável, é bom. Eu amo transar. Eu amo estar com alguém. Eu não preciso mais abdicar disso. Disso o que? De ter alguém na minha vida. De ter um companheiro. De ter sexo seguro.
Uma mulher não pode ter vagina. Um homem não pode ter penis. Maria engravidou de Deus. O homem nem existe. É uma história tão absurda essa criada pela igreja. Maria foi inseminada por uma entidade e se manteve virgem. Eu fiz 5 fertilizações para ser Maria. Engravidar sem ser penetrada. Meu ex-marido fez 5 fertilizações para ser Deus. Que pacto perverso. A que ponto chega a fidelidade à Santa Madre? À Mãe Santa? À Igreja Católica? A que ponto chega o medo? Qual a extensão do medo que é introjetada nas crianças? Qual a extensão da ameaça da castração introjetada nas crianças? Essas imagens absurdas? Iverossimeis? Esses mitos de que a mulher (Eva) é má? De que Adão foi enganado? Oi? De que os homens são até hoje homens das cavernas com seus instintos primitivos? Adultos já podem descartar essas historinhas. Eu já sou adulta. Essa teoria é balela.
O medo da castração é dar poder ao outro (é o outro que não deixa, não permite). Não somos nem onipotententes e nem impotentes. Existem limites (castração), mas os limites não podem esmagar a nossa potência. Eu tenho potência. Os homens tem potência. Eu posso. As regras da sociedade não me impedem de querer, desejar, criar. Eu preciso de um ambiente seguro com um homem e nós podemos criar este ambiente juntos. Será com o Carlos? Não sei. Não importa quem. Eu já estou pronta.
O penis não é o poder. Eu não preciso engolir o poder das instituições. Existe a individualidade. Existe cada um. Eu existo. O meu corpo existe.
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